agroecologia, ecologia, manejo do solo

MANEJO PRIMAVESI

Texto retirado da página de Ana Primavesi no Facebook

(vídeo com Fernando Ataliba e Ana Maria Primavesi)

.

O primeiro contato de Fernando Ataliba com o nome Ana Primavesi se deu pelo relato de um amigo de escola que cursava a Esalq. Este amigo contou que a professora tinha estado lá, debatendo com outros professores, e que ela não tinha convencido ninguém, nem aos alunos nem professores. O amigo ressaltava que não era possível que todo mundo estivesse errado e ela certa, e que portanto esse negócio de agroecologia era uma furada. Tempos depois, Fernando ganha de presente um dos livros da professora, “o único que não comprei”.

Bom leitor que era, leu Primavesi e muitos outros livros, de diferentes autores e assuntos. As ideias daquela pesquisadora eram estranhas, “mas ao mesmo tempo, eu comecei a fazer relações entre o que ela falava e como era a fazenda do meu avô: ninguém usava adubo químico, pulverização, NPK, e produzia-se de tudo… eu observava meus vizinhos e eles começaram com um sucesso danado, depois decaíram… e fui construindo as minhas possibilidades, observando e fazendo.

No início, pensávamos que as pragas a gente tinha que matar. Procurávamos pelos meios menos agressivos, os mais alternativos, métodos biológicos, e de repente eu entendi que não era nada disso: tem que fortalecer o solo, as plantas. Fui fazendo e dava certo, então eu voltava ao livro, relia, e assim fui fazendo. Eu não acredito na Primavesi porque li o livro, acredito nela porque relacionei o que ela escreveu com a minha experiência pessoal no sítio, as experiências dos meus vizinhos modernos e as experiências da antiga fazenda da minha infância. Foi eureca; daqui pra frente, tenho que conhecer as plantas e saber como equilibrá-las”.

Fernando fez tudo aos poucos. Usou em alguns talhões o capim Elefante como quebra-ventos, em outros plantou cedrinhos, mesmo que estes crescessem mais devagar. Fez adubação verde, rotação de culturas. Tentando, observando, pensando, relacionando. O sítio respondia. Produzia, entre outras coisas, tomate e berinjela. Pulgões, percevejos e brocas viviam atacando ele usava os produtos que eram permitidos pela agricultura orgânica, e mesmo assim não resolvia. “Comecei a perceber que o problema estava em manejar todos os elementos do sistema. O marco para mim foi observar que em meio às plantações de tomate, tinham algumas plantas espontâneas, como serralha, picão e rubi, todas cheias de pulgões. O vento balançava o mato e os pulgões caíam em cima do tomate, mas eles corriam de volta para o mato. E ali eu vi, o tomate estava equilibrado, o mato não, então o pulgão não tinha como atacar o tomateiro.”

Nesse percurso, Fernando já vinha acompanhando algumas palestras, cursos e lendo os outros livros de Ana. Tinha se tornado um seguidor de seus ensinamentos. Um dia, ela veio pernoitar no seu sítio. Foi em 2007. No dia seguinte, Ana daria a aula inaugural do Curso Teórico e Prático em Agricultura Orgânica.

Quando chegou, foi recebida por Taís, esposa de Fernando, que logo convidou: “Vamos passear na roça? Ela aceitou na hora. Leve o enxadão, ela me pediu, para ver o solo.” Fernando não pegou o enxadão, apenas disse: “A senhora me diz onde quer ver e eu cavo com minhas próprias mãos”. A cada parada, lá ia ele, cavava, 30, 40 cm, mostrava o solo com as mãos unidas, “muito bom, muito bom, vamos pro outro”, arrancava uma plantinha e olhava as raízes. Tinha tomate, cebola, alho, cenoura, maracujá, vagem, abobrinha, uva, mamão, banana, noz macadâmia, entre outras; paravam em cada uma, ela olhava a raiz, as folhas, o tamanho dos frutos, arranca aqui, cava ali, e assim foi a tarde toda, até voltarem para casa. “Ela voltou pra casa feliz da vida.”

Depois disso, Ana voltou ao sítio todos os anos. Quando perguntada sobre um lugar onde se fazia “tudo direitinho”, o sítio Catavento era um lugar que ela citava. Dava cursos, palestras, consultorias lá. Numa dessas vezes, viu uma planta que não conhecia. “O que é isso?”, perguntou. “É um pé de abiu” (uma fruta tropical). “Está com deficiência de boro”, sentenciou. “Mas como ela podia saber que faltava boro ali, se ela nem conhecia aquela planta?” Fernando foi investigar. Estava mesmo. Quando os brotos não saem pelo ramo principal, mas pelo lado, formando ramos secundários, falta boro. Isso também se manifesta nas raízes, se a principal ficar menor do que as secundárias, é falta de boro. “É um fenômeno universal.”

“Existe um componente na agricultura orgânica que é artesanal, humano, respeitoso e pessoal. A outra agricultura é industrial, tem seus protocolos, receitas, métodos impessoais, que devem ser seguidos à risca, como uma receita. E a Primavesi valoriza esse saber do agricultor, essa relação que cada um estabelece com a terra, o que aprendeu, o que criou.”

Perguntado sobre o termo por ele criado, o “Manejo Primavesi”, não é mais preciso explicar: “Eu sou um primavesista.”

Trecho do livro:  Ana Maria Primavesi: histórias de Vida e Agroecologia – editora Expressão Popular.

 

 

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.